Posted by : Lilian Kate Mazaki domingo, 28 de janeiro de 2018

Já faz algumas semanas desde o começo da tão esperada exibição do anime de Citrus. Com quatro episódios no ar (podendo ser assistidos inclusive no Crunchyroll BR) acho que já podemos conversar um pouco sobre essa adaptação.

Primeiro gostaria de deixar claro uma coisa: eu não tinha lido quase nada do mangá de Citrus até assistir o episódio mais recente do anime na data de publicação deste post. Claro que conhecia a história e estava um tanto inteirada dos acontecimentos mais gerais devido ao burburinho constante que o mangá gera no fandom. Mesmo tendo o primeiro volume em inglês acabei postergando até o dia anterior a este texto para enfim entrar de verdade na obra da qual nós vamos falar aqui.

Tendo dito isto, vamos começar com uma breve recapitulação do plot de Citrus para que, caso você leitor seja alguém que caiu de paraquedas aqui pensando em conseguir alguma informação sobre esse tal anime yuri do momento para decidir se assiste ou não fique menos perdido com o que vamos comentar.




Yuzu é uma gyaru* que tem que mudar de escola por conta do novo casamento de sua mãe. Para o desespero dela a escola nova além de ser feminina (e daí ela terá que dizer adeus a sua farsa de vida amorosa movimentada) como também é extremamente tradicional. Como se não bastasse isso Yuzu descobre que sua nova irmã graças ao casamento é ninguém menos do que Aihara Mei, a presidente do conselho estudantil e neta do diretor da escola.

*(é um estilo de moda feminina. Existem vários artigos na internet explicando, mas existem alguns bem resumidos para introdução como este do Suki Desu, ou este do Harajuku BR)

Claro que Citrus não faria tanto sucesso se não fosse pela complicação extra que surge da convivência com a misteriosa Mei: Yuzu acaba se apaixonando pela nova irmã e seu jeito impulsivo de agir antes de pensar apenas coloca cada vez mais tensão nessa situação já delicada.

Citrus foi em certo limite um marco dentro da Comic Yurihime, revista na qual é publicado até hoje, por ter sido a primeira obra com plot cerceado pela controvérsia que alcançou grande popularidade dentro do fandom. Depois dele vieram outros mangás "polêmicos" embalados nessa onda, como Netsuzou TRap e recentemente o Tatoe Todokanu Ito da to Shite mo. O fato assombroso de Citrus já estar em seu nono volume de publicação é algo que não pode ser ignorado. 

Para além do óbvio do "caso proibido entre irmãs que não são irmãs" Citrus tem mais a oferecer ao leitor. Personagens complexas, contraditórias e imperfeitas (a essência para uma narrativa verossímil, diga-se de passagem), a capacidade de manter o fôlego da narrativa sem se prender aos passos óbvios em um mangá yuri (tomemos os mangás "cena de sexo e daí The End" da Milk Morinaga como um exemplo). Não é sem motivo que sua ida para os animes era um dos eventos mais aguardados dentro do "mundinho dos lírios"

(Sobre pontos específicos do enredo de Citrus creio que seja melhor falarmos mais disso em outra oportunidade, em forma de texto ou mesmo de Yuricast. Como pincelada vou deixar apenas esta minha observação pessoal:

Já pararam para reparar no quanto a Mei tem em comum com a Himemiya Anthy?)



Falando um pouco sobre quesitos de adaptação para anime podemos conversar um pouco sobre um dos pontos que causou muita polêmica dentro do fandom antes mesmo do lançamento do primeiro episódio: qualidade de animação. O estúdio responsável pela produção é o quase-novato Passione (ficha de trabalhos da empresa, no ANN) e, dentro de todas as limitações orçamentárias que um projeto de anime yuri tem sou da opinião de que, sim, a animação não é a mais bem produzida possível, mas também não prejudica a qualidade da obra.

A qualidade da arte da autora de Citrus, Saburouta, é incrível. Talvez só uma Kyoto Animation ou Mad House poderia colocar tanto empenho em fazer mechas de cabelo tão magníficas em cada quadro para realmente alcançar proximidade com o trabalho da Saburouta. Claro que tudo isso custaria uma infinidade de dinheiro à mais, algo que um anime de nicho do nicho como Citrus dificilmente conseguiria trazer de volta em forma de lucro. 

Não é tão ruim ao ponto de ter vergonha vai. Netsuzou foi bem pior XD


Em termos de dublagem e músicas até então estamos tendo um trabalho excelente. Ayana Taketatsu está fazendo uma Yuzu muito fluída, que transita entre os diversos tons que a personagem usa para se expressar de maneira precisa. A abertura da série, 'Azalea' do grupo nano.RIPE tem uma animação satisfatória e muito bem montada (montagem é tudo quando falamos de aberturas.

Agora vamos falar sobre o ponto central desta miscelânea em forma de post:

Adaptação.

Gostaria começar rebatendo alguns comentários maldosos que vi dentro do fandom sobre duas cenas do primeiro episódio do anime: a revista que Mei dá em Yuzu para pegar o celular, na entrada da escola e o beijo no final do primeiro episódio.

Em ambos os casos o argumento que vi sendo proferido foi a natureza abusiva (isso por si só é uma crítica? Não consigo entender o que as pessoas dizem com  isso, sinceramente) colocada na versão animada deste dois acontecimentos. Infelizmente a explicação mais clara sobre cada um desses momentos não é uma só nem é simplista, então venham comigo desembaraçar um pouco estes pensamentos.

1) Yuzu é uma lésbica enrustida desde o começo?



Yuzu é uma gyaru que fingia ter uma vida amorosa agitada para impressionar suas amigas. Contava histórias sobre ter ficado com o cara tal e afins quando na verdade nunca sequer tinha beijado ou se apaixonado. Quando teve seu primeiro beijo roubado de maneira desleal (na segunda cena que vamos discutir) isso dá início à um movimento confuso dentro dos sentimentos de Yuzu que lhe levam a sentir-se atraída em todos os sentidos por Mei. Isso tudo culmina na sua descoberta de que seus sentimentos são sua primeira paixão.

Yuzu sempre se fizera de hétero pegadora para impressionar as amigas, para ser aceita como parte do grupo delas. Podemos ver ela ainda tentando reproduzir esse comportamento logo que chega no novo colégio e vê o professor (que depois descobre ser um desgraçado) assim como ela tenta ainda reproduzir o mesmo comportamento antigo para fazer novas amigas naquele lugar. É uma questão de busca por aceitação. Podemos ver mais para frente do mangá como essa questão de ser aceita pelas pessoas é algo que pesa muito para ela (quando se confronta com suas amigas e percebe que não seria mais aceita por ter se tornado diferente).

E o que isso tem haver com a cena da Mei passando a mão pela bunda da Yuzu logo na chegada pro seu primeiro dia de aula? Certo, vamos entrar um pouquinho mais fundo e falar sobre como o ponto de vista de uma história influencia o modo como vemos essa história sendo contada.

Ponto de Vista (Point of View - POV, em inglês) é um dos elementos mais importantes em uma narrativa. Não estou falando apenas sobre obras em escrita em primeira ou terceira pessoa (narrador intradiegético, extradiegético e afins),mas falando sobre a maneira como essa escola de ponto de vista influencia no que vemos numa obra. Enxergamos uma história através do olhar de um personagem escolhido pelo narrador (mesmo quando esse narrador escolhe contar tudo pelo seu próprio olhar). 

Um exemplo de conhecimento mais amplo e bem simples é lembrar de como, na saga Harry Potter, o personagem de Severus Snape é descrito como uma pessoa fria, maldosa e vilanesca a todo momento e pensar que isso ocorre porque estamos "vendo" esse personagem pelos olhos do protagonista da história. Em história infanto-juvenis como esta é bem mais fácil identificar estes movimentos, mas esse tipo de influência ocorre tanto em obras mais complexas como também em quadrinhos, cinema e toda a forma de mídia narrativa que se apresente.

(Ficarei devendo boas referências sobre o assunto, mas se encontrar volto aqui e edito este comentário para inserir bons links para ler à respeito do tema)

Em 95% da história de Citrus estamos vendo tudo o que acontece pelo POV da Yuzu. Como argumentei antes, ela sempre foi uma lésbica enrustida, logo, quando uma garota bonita de repente vem passar a mão nela (buscando um celular, lembrem-se disso) ela não consegue evitar em prestar toda a atenção em cada detalhe daquele acontecimento. O instinto que está dormente nela reage ao contato inesperado, fazendo aquele momento ter uma importância muito maior para ela do que seria para outra pessoa. Logo, se estamos observando tudo pelo seu ponto de vista, este momento ganha também um grande destaque dentro da narrativa.

(E sim, tem também a parte do fanservice fazer audiência e audiência fazer grana, não precisam achar que estou sendo inocente quanto a isto. Porém vocês precisam entender que existe uma explicação que torna esse momento algo compreensível dentro da estrutura narrativa como um todo)

Agora, o nosso segundo ponto de discussão. O beijo.

2) Sim, a Mei é uma filha da p..., mas vejam que ela está reproduzindo o comportamento que vê no mundo que conhece. 



Yuzu vê a Mei sendo beijada (à força) pelo professor e isso a deixa muito abalada. Ela tenta usar esse conhecimento como uma arma para provocar Mei (numa necessidade bastante infantil de ver a outra perder a compostura sempre impecável, convenhamos) e como resultado Mei lhe ataca e lhe rouba o primeiro beijo apenas para revidar as provocações (essas duas são umas criançonas. . .). A cena mescla o desespero de Mei em ser atacada daquela maneira com a confusão das reações do seu próprio corpo diante daquele contato. Quando Mei termina seu ataque não há qualquer traço de emoção em sua face. Yuzu por outro lado fica em completo choque, indignada e confusa diante daqueles acontecimentos.

Uma coisa que não temos como saber no começo da história é o fato de que a Mei é uma pessoa que não sabe entender ou lidar com os sentimentos das pessoas. Não. Ela é tão habituada a reprimir suas próprias emoções que consegue chegar ao ponto de agir sem qualquer remorso.

Agora, a parte que realmente é bastante intrigante nisso é a questão de Mei estar, naquele gesto nada elogiável, repetindo o que havia sofrido naquele dia mais cedo quando teve seu primeiro beijo também roubado de maneira nada elogiável pelo professor. Para além de uma criancice, Mei acaba usando aquele momento para colocar-se no mesmo papel de crime do qual havia sido a vítima. Como uma vingança que não soluciona nada (pelo contrário). É um ato imaturo e cruel de alguém que não entende nada de empatia e nem sequer de sentimentos. Uma pessoa tão absurdamente reprimida que só é capaz de agir através da violência quando é confrontada sobre algo que não é capaz de lidar e lhe causa repulsa (o abuso sofrido).

Sim, essa é Aihara Mei. Ela não é só uma filha da p... agindo sem qualquer coerência. Ela é um personagem complexo que, como um bom personagem, possui camadas de incoerência, imaturidade, parcialidade e fragilidade. 



A questão das críticas à essa cena no anime me geram uma dúvida: será que essas pessoas não tinham entendido que a intenção da cena era essa desde a versão original, no mangá? Se entenderam esperavam que o anime amenizasse isso? Ou talvez não tivessem realmente entendido e esperavam algo. . . Diferente. . . Sinceramente não sei o que poderiam esperar.

Da minha parte só posso colocar elogios para a direção da série não ter tido medo de mesclar elementos tão complexos nos momentos necessários, conseguindo transmitir com toda a potencialidade de uma animação os sentimentos que a autora já havia expresso com maestria através do quadrinho.






Enfim. . . Era isso.

Sinceramente escrevi bem mais do que esperaria e poderia ter escrito ainda mais. Espero que possamos continuar debatendo sobre isso na sessão de comentários e, quem sabe, em outros artigos aqui no Kono-ai-Setsu. Este texto me fez lembrar muito quando escrevi a série "Comentários, surtos e teorias sobre Yurikuma Arashi" aqui no blog, um dos trabalhos que até hoje me deixa muito feliz em ter feito.

Para quem quiser dar uma olhada. Gostariam de algo mais próximo desse formato para Citrus?


Até a próxima!


5 Responses so far.

  1. Gostei do seu post. Particularmente estou adorando assistir. ☺

  2. Mazaki-san! Fa um tempinho que não apareço, né...


    Vou dizer que concordo com os pontos levantados, acho que esse pessoal que reclama dessas cenas não conheciam o teor mais denso do série, ou achavam que era algo mais leve. Também não entendo muito essa birra com a animação. Considerando todos os fatores, está muito boa, se tiver um bom retorno financeiro nessa primeira parte, podemos contar com melhorias numa segunda parte. Alias, podemos contar com a EXISTÊNCIA de uma segunda parte, o que já seria uma grande coisa para o fandom...

    Parem de ser cretinos, poxa!

    Acho interessante a ideia de fazer posts assim de Citrus, se possível (Citrus merece, vai, Aihara Mei precisa ser compreendida e amada!). Estou acompanhanddo o mangá, o que significa que estou naquela fase da sofrência de esperar sair novo capítulo...

    Bem, espero ter mais tempo livre agora, mas minha vida ainda está uma bagunça! Espero comentar mais por aqui ou no canal de vocês, até!

  3. Oh, acabei esquecendo de idzer, mas a comparação de Mei e Anthy é bastante precisa! Elas tem muito mais em comum do que pode parecer em primeiro momento, e não seria a Yuzu uma quase Utena em si? Lutando contra as diretrizes padronizantes do colégio e tudo mais? Até mesmo ela acaba entrando em briga com membros do conselho estudantil mais adiante na série, pelo bem da Mei...

  4. Ah, sabia que estava esquecendo de algo! Que desdenhamento é esse com a best friend of yuris Harumin? poxa, só a Nene-kohai e eu reparamos nela? Voto por um spin-off só dela!!!!!!!!

    (Sim, voltei só pra isso mesmo, duhuhuhuhuhu)

  5. Peach Oil says:

    Mei Aihara É abusiva, não precisa acobertar. Do jeito como falou, parece que nunca sofreu abuso na vida...

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